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24 dezembro 2010

Um perfil para o Natal

O natal é uma data para família. Nada melhor que celebrá-lo, portanto, com a história que sustenta a minha. Com vocês, minha mãe - que completou, neste ano que se encerra, o seu jubileu de ouro. Escrevi este texto, originalmente, para uma disciplina da faculdade. Com algumas correções, o compartilho agora. Feliz Natal a todos. E um belo 2011.
Nasceu numa família bem estruturada, de sobrenome influente. Era uma Falcão. A mãe Volínia, vanguardista, foi professora em meio aos anos 1950, quando poucas mulheres estudavam no Brasil. O pai, um ícone, também era professor... de química, biologia – às vezes, até de física.

23 novembro 2010

Os garotos da garagem - parte 1

Mano Ferreira e Otávio Batista

Tempo e espaço mantém um casamento antigo. Antiqüíssimo. Filósofos, poetas, físicos – muitos foram os que se dedicaram ao estudo, apreciação e exaltação dessa relação. No Recife, eles se encontram mais uma vez: se não com toda sua complexidade metafísica, certamente com profundo simbolismo. Quando o alvorecer na capital pernambucana encontra a Rua da Aurora, logo se nota o belo casal que eles formam. Daqueles que não se vê em todo lugar. Daqueles que só de olhar passa a segurança que, salvo uma catástrofe, eles permanecerão juntos, alvorada após alvorada. Daqueles que, como se diz por aqui, “dá liga”. Diariamente, as primeiras horas da manhã se encontram com aquela rua às margens do Capibaribe e, como é comum nos casamentos, um recebe o nome do outro.

Em torno deste simpático casal orbitam muitas figuras: os primeiros madrugadores da região, que vão à beira do rio praticar exercícios físicos ou caminhar despretensiosamente; os moradores de rua, muitos ainda desfrutando o que resta do seu desprotegido sono; um ou outro cidadão atarefado para algum compromisso. Dentre esses personagens, se destacam também os praticantes de remo do Clube Náutico Capibaribe: a passar pela rua com os barcos nos ombros; a se exercitar nas margens; a singrar o rio, remada a remada.

05h40min, cedo demais pra muita gente. Nessa hora, o técnico Cláudio Belo supervisiona os atletas na água – o treino já está perto do final. De pé em uma pequena praia de solo escuro e enlamaçado entre a margem calçada e a água, no meio da vegetação. O sol incide já ganhando força no espelho sombrio e sujo do Capibaribe. O calção estampa o escudo e as cores do Flamengo, vestígio da sua passagem pelo clube carioca. A camisa é do Náutico. Receptivo, o treinador sorri e, entre observações técnicas sobre os atletas que passam remando no rio, começa a nos contar sua história.

Cláudio é de Natal, capital do Rio Grande do Norte. Filho de remador, começou no esporte ainda garoto, em 1982. Nunca parou. Remou com grandes nomes do desporto nacional. Defendeu a seleção brasileira por vários anos. Disputou torneios internacionais. Quando o tempo venceu as vontades, virou remador máster. Junto ao pai, dirigiu o tradicional Sport Club de Natal, cuja fundação remete aos áureos tempos de 1915. A paixão o transformou em um multiplicador do conhecimento adquirido pelos anos de prática e pelo empenho que cultiva pela qualificação: virou um professor – ou talvez um irmão mais velho, corrigindo defeitos, talhando a técnica, dando dicas aos companheiros que vão surgindo, ainda moços a cortejar as águas para um namoro através dos barcos. Na direção do clube potiguar, costurou uma parceria com o Náutico. Há pouco mais de dois meses, desembarcou no Recife como um atleta máster – e ajudou o alvirrubro a vencer uma hegemonia de 25 anos do maior rival. Passado o campeonato, virou o novo técnico da equipe. Sua missão? Coordenar um trabalho que dissolva as barreiras da imaginação e rompa com os limites – do estado de Pernambuco, dos tempos nas pontas dos remos longos, das amarras da mente. “Aqui em Recife, apesar de ter mais estrutura que em Natal, a preocupação é muito local. Só existe o pernambucano. A rivalidade é muito grande, como no Rio de Janeiro – talvez por conta do futebol, a torcida exige. Lá em Natal, a gente se preocupa com competições maiores: norte-nordeste, brasileiro. Mas agora os meninos tão começando a pensar assim e estamos lutando pra disputar o regional esse ano”, explicou.

O céu ia mudando de tom e as cores do mangue iam mudando de aspecto – sinal que dali a pouco a equipe sairia do rio e os atletas trocariam seus trajes. Os maiôs colados ao corpo logo dariam lugar às fardas – do colégio ou do trabalho. Antes do banho nos vestiários, no entanto, havia todo um ritual a ser feito. Os barcos começavam a se despedir das águas: os remos diminuem os afagos à superfície do rio, na tentativa de amortecer a tapa que o esquife leva da margem; paralisadas as embarcações, os atletas desprendem seus pés e se levantam. Enfiam os pés na praia escura e, em dupla, suspendem o barco, de casco pra cima, os extremos apoiados nos ombros. Outro atleta se encarrega de levar vários remos, lotando os braços. Sobem a calçada e atravessam a rua.

Os garotos da garagem - parte 2

Nesse instante, podem vislumbrar a fachada da garagem: ela é simples. Como não poderia deixar de ser, branca e vermelha, estampada com um austero escudo do clube. Ainda não pintaram o novo modelo do emblema, adotado em 2008. Está lá o escudo antigo, deixando no ar um aspecto de desatualização tradicionalista. Na calçada e no acostamento da rua, impecáveis cavaletes de propaganda política atrapalham a passagem e poluem o visual: é o rosto photoshopado e sorridente do presidente do Conselho Deliberativo do clube, André Campos, candidato a deputado estadual. Também sobre a calçada, há outros cavaletes. Esses são improvisados, feitos lá mesmo na garagem: pedaços de madeira pregados em cima a uma tira de borracha que, apesar de sustentar os barcos, é frágil e se estica – constituindo um perigo aos equipamentos. São para estes cavaletes que os atletas caminham. São lá onde os barcos descansam, à espera da lavagem feita pelos próprios remadores, entre conversas e gargalhadas.

Foi o primeiro contato que tivemos com a equipe. Estávamos sentados próximos aos cavaletes onde lavavam os barcos. Eles brincavam entre si, sem se preocupar muito com nossa presença. Desacostumados com o horário, nos entreolhávamos sonolentos, comentando sem palavras certos detalhes que chamavam nossa atenção. O estado dos barcos, por exemplo: os materiais são caros e os recursos para o esporte olímpico no Brasil são escassos; justamente por isso, o equipamento no Nordeste é defasado. O cuidado com as embarcações, carinhosamente lavadas, ficou ainda mais evidente outro dia, no comportamento de Douglas: eternamente apressado para o trabalho, passou entre nós correndo, mas teve tempo para conferir um defeito num barco recém-lavado e procurar saber quem tinha sido o último responsável por ele. Pelo que nos disseram seus companheiros, Douglas é extremamente sério e organiza um grupo de leituras da Bíblia pelas noites da garagem – e é também muito divertido, um responsável direto por algumas das risadagens generalizadas.

Naquele dia de apresentações, pensávamos nas nossas motivações pessoais para a visita, essa reportagem. Mano remou seis meses na escolinha do rival Sport e aqueles instantes eram de recordações da rotina do período. Já o avô de Otávio foi remador ali, naquele mesmo Clube Náutico – e quantas histórias já contou dos tempos da juventude? Contou que o remo, naquela época, era o principal esporte do país – e que as partidas de futebol eram marcadas em função do calendário do remo. Explicou que o remo, como esporte, surgiu provavelmente na Inglaterra do século XIX, inspirado nas várias embarcações que já existiam. A partir daí, apuramos que desde 1818 o Leander Club já remava nas águas do Tamisa e que a tradicional boat race, por sua vez, é a regata disputada entre as Universidades de Oxford e de Cambridge desde 1829. Vimos que também há registros de regatas recreativas de barcos a remo que datam da Veneza renascentista.

Na Veneza, desta vez brasileira, e nas águas, desta vez do Capibaribe, o remo começou a ser praticado pelo Clube Internacional do Recife em 1888. O Náutico tem sua data de fudação oficial no dia 7 de abril de 1901. No entanto, o grupo que veio a fundar o clube já praticava a modalidade desde a última década do século anterior, sob outras alcunhas. Em 1905 foi fundado o Sport Club do Recife. O Santa Cruz Futebol Clube praticou remo apenas de 1920 a 1922. O Barrozo, cuja sede é vizinha à garagem timbu, é outro importante nome no cenário do remo pernambucano e está atualmente em um processo de revitalização de suas atividades.

Os garotos da garagem - parte 3

Em meio as nossas divagações matinais, Cláudio apareceu e nos apresentou ao grupo. Explicamos nossas intenções e todos, de pronto, foram muito solícitos. Já de início, alguns aspectos nos impressionaram: em primeiro lugar, o fato de que aqueles garotos dormiam todos os dias ali, juntos, longe da família – ao menos, longe de seus pais biológicos. Pudemos depois descobrir que os garotos da garagem são praticamente irmãos. E que dentre eles, há dois que são irmãos de fato: Marcos, o mais velho; e Lucas, o mais novo – dos quais falaremos mais adiante. Também descobrimos que, em meio a tantos garotos, há também uma garota. Wedja Stephany, 18 anos, é Fany, a Torebinha. Chegou ao remo a partir de uma palestra sobre o esporte em seu colégio. O apelido no diminutivo revela sua estatura, baixa para uma remadora – o que a faz ter de superar este desafio com empenho na parte técnica. A convivência em meio a tantos homens nem sempre é tão fácil e ela sente falta de uma companhia feminina na garagem. Como mecanismo de adaptação, a maioria dos meninos a enxergam como uma irmã, o que significa que procuram não notar sua feminilidade. Arthur, 16 anos, o mais falante de todos e que também chegou ao remo a partir de uma palestra em seu colégio, tem uma postura diferente. Ele já teve um namorico com Fany, mas ninguém fala muito a respeito. Quando tem a voz, Arthur rapidamente demonstra a altura de seus sonhos. Fala em vencer campeonatos brasileiros, disputar olimpíadas. Certos desejos que, pudemos descobrir depois, às vezes escorregam em atitudes de soberba. Mas que, no fundo, não deixam de constituir um sonho compartilhado com os colegas.

Após um bate-papo descontraído, Marcos, 18 anos, como um anfitrião expondo a casa pra visita, se disponibilizou para nos desvendar a garagem. Ela é estreita, sua fachada não tem mais de 10 metros. Para compensar, se aprofunda longamente. Na primeira sala, as paredes se preenchem de barcos estacionados, apoiados em suportes, um sobre o outro, como numa estante. As embarcações são batizadas em homenagem a pessoas que, de uma maneira ou de outra, contribuíram para o remo ou para o clube de um modo geral: dirigentes, ex-dirigentes, torcedores. E não é raro ouvir pela garagem declarações do tipo: “Quem foi que saiu com o Eládio hoje?” ou “Ninguém vai lavar o André Campos não, é?” ou também “O Hélio Monteiro ta lá fora ainda. Bota pra dentro!” Ah, isso descontextualizado...

Ainda na primeira sala, a seguinte inscrição recebe o visitante: “Aqui está o coração alvi-rubro”. A frase está escrita no parapeito do mezanino que serve de dormitório aos atletas. É, portanto, ali, sobre o coração alvi-rubro, que os garotos, despertados por Cláudio, levantam-se de suas camas todos os dias, às 4h30 da manhã. A cidade ainda está escura – e os garotos estão pegando seus barcos e entrando no rio. Por que será que jovens e adolescentes, em idade em que normalmente teriam uma vida social atribulada entre passeios com os amigos, atividades escolares e possíveis namoros, preferem se comprometer em prol da atividade esportiva? Pedro, 17 anos, o primeiro a adormecer todas as noites, também conhecido como “cunhado”, afirma sem titubeio: “eu gosto disso mesmo, de sofrer, treinamento forte, me lascar... Tentei vários esportes: futsal, natação, capoeira, le parkour, judô... Eu queria entrar no exército, mas aí meu pai me trouxe pra cá e eu gostei”. A passagem por vários esportes é comum entre os remadores. Afonso e Tripa jogaram futebol. Marcos fez taekwondo, karatê, natação e capoeira até lembrar que um tio, na juventude, remou pelo Barrozo para, enfim, procurar os barcos.

A continuar o passeio, viramos à direita, onde se encontra a sala de musculação. À primeira vista, parece uma sala bem equipada e Cláudio Belo termina por corroborar a impressão: “aqui é a sala de musculação. É uma sala boa essa, bem variada. Esses equipamentos aqui vieram lá do futebol.” A doação do primo rico é bem vinda, mas o treinador conclui: “É bom porque o pessoal pode escolher os exercícios que vão fazer, mas específico pra remo mesmo, a gente só usa três ou quatro aqui”. O maquinário é todo estilizado nas cores do clube. Umas peças se sobressaem, mais desgastadas que as outras, provavelmente anteriores à doação. Ali, sentados sobre os aparelhos para exercícios, pudemos, em mais uma visita, conversar longamente com Afonso, 20 anos. Ele é o segundo mais antigo na garagem: rema todos os dias, há 2 anos; pouco menos que Tripa, 19 anos, seu vizinho de jeitão calado, que o apresentou ao esporte. A casa de seus pais fica no mesmo quarteirão, mas ele faz questão de dormir com o grupo: “esse contato mais próximo com o pessoal me faz bem”, explica. Afonso trabalha com a mãe e o irmão num buffet que funciona no mesmo local de trabalho de seu pai. O emprego, então, é garantia da convivência com a família. Mesmo assim, a mãe às vezes cobra: “meu filho, você não vai dormir em casa mais não?”, nos conta o remador.

Os garotos da garagem - parte 4

Seguindo em frente com o tour, no mesmo vão, encontra-se o “escritório”. Na parede externa da sala, fica uma bandeira do Náutico. Dentro, há um sofá, duas cadeiras, uma TV e um Super Nintendo. Foi ali que, em mais um dia, sentamos confortavelmente e conversamos com Marcos, que, com a intimidade e pela última sílaba de seu nome, é chamado pelos companheiros de Cu. Ele sabe o dia exato em que achou o seu esporte: 22 de setembro de 2008, conta com orgulho. Uma dessas precisões que só o gosto extremado é capaz de prover. Pensando no seu futuro, Marcos se dedicou aos estudos – o que o obrigou a dar uma pausa no remo durante o ano passado. Desde janeiro, agora técnico em eletrônica formado pelo CEFET e aprovado em concurso de ingresso na aeronáutica, Cu está de volta à garagem. Tem consciência que, na altura da vida que ele construiu, o remo é somente um prazer a que ele se dedica apaixonadamente à espera da convocação para a carreira militar. Um prazer tão escancarado que inspirou seu irmão, Lucas, que chegou onde estávamos e se juntou à conversa, a seguir o seu caminho desportivo. Pela diferença de idade, eles não são da mesma categoria – e só remaram juntos no mesmo barco uma vez. Mesmo assim, a vida na garagem os aproximou e, além do prazer de remar, Lucas herdou, do irmão (que deixou a sala), o apelido: virou Cuzinho. Cuzinho, 15 anos, estudante no 2º ano do ensino médio, pretende permanecer no remo e galgar o máximo que puder no esporte, falando até em chegar nas Olimpíadas. Sabe, porém, que, no Brasil, muitas vezes os sonhos ainda diferem das metas. Começa, por isso, a pensar em, assim como o irmão, fazer um curso técnico e entrar na carreira militar.

As nossas barrigas começavam a soltar grunhidos, denunciando o avanço das horas. Paramos nossa conversa e saímos do escritório. Cuzinho nos conduziu pela oficina, onde antigamente construíam os barcos de madeira. Hoje, os barcos são mais tecnológicos, feitos de fibras de carbono – uma técnica mais cara e que não foi ainda dominada pelos clubes brasileiros. Assim, a oficina do Náutico não trabalha em plenos vapores, mas faz pequenos reparos nos barcos e remos que se desgastam. Um funcionário mal humorado se dedicava a uma embarcação quando Cuzinho perguntou: “e aí, quando é que esse barco fica pronto?”. A resposta veio seca: “quando eu receber meu salário”. O remo não possui um orçamento animador e os funcionários do clube dependem da administração central pra receber seus rendimentos. A administração central, por sua vez, depende dos resultados do futebol. Assim, se o primo rico estiver em má fase no Náutico significa que os funcionários estarão insatisfeitos, sem receber um tostão. Essa vivência faz com que todos no clube, até aqueles que antes apoiavam outros times dentro das quatro linhas, torçam intensamente pelo Timbu, inclusive nos gramados.

A oficina possui, ao fundo, uma saída para a cozinha – e foi para lá que andamos. Há uma televisão e uma grande mesa com várias cadeiras em volta, onde fazem as refeições. A cozinheira, funcionária do clube, trabalha em um cômodo conjugado, onde ficam o fogão e a geladeira. Quando, por ventura, ela não pode ir, alguém da equipe ou da comissão técnica assume a função. Aceitamos o convite para sentarmos à mesa. Restavam poucos tomando café da manhã: a maioria já havia comido, tomado banho e ganho o mundo. Conversamos amenidades enquanto comíamos pão assado com suco de laranja. Na TV, os gols da rodada no desfecho do Bom Dia Brasil.

Os garotos da garagem - parte 5

Hora de deixar a garagem. Àquela altura, a equipe já estava espalhada, cada um em seu compromisso. Fany devia estar estudando. Arthur, no colégio. Pedro, também. Marcos estava na auto-escola. Lucas estava indo pra casa, ver os pais e estudar – colégio, pra ele, só à tarde. Afonso estava indo pro buffet. Tripa, trabalho. Douglas, trabalho. Todos voltariam mais tarde.

Dentro da rotina de treinos, a preparação física geralmente fica para a segunda etapa diária de treinamento, que acontece ao entardecer e segue noite adentro. Se a Rua da Aurora é casada com o alvorecer, o crepúsculo é um amor platônico. Tão belo quanto seu cônjuge, permanece distante, inalcançável – chega à sua admiradora apenas seus vestígios, suas cores refletidas. A cidade que se avizinha mostra sua cara. Pessoas apressadas passam indiferentes, carros com os faróis ligados cortam a rua, assim como os barcos cortam o rio pela manhã. Os remadores chegam paisanos, misturados ao mundo de lá. Marcos, filho de padeiro, vem de casa com o pão para o jantar e o café-da-manhã de todos. Cada um, submetido aos caprichos de seus horários, aporta e se prepara para a bateria de exercícios que vão executar. Individualmente. Para, enfim, ao cessar dos afazeres físicos, se aglutinarem pouco a pouco, nos instantes extremos de convivência. É quando o videogame do escritório faz sentido. Quando todos conversam: em duplas, em grupos – em equipe completa. Até que o imperador dos versos compartilhados passa a ser o cansaço, a ordenar autoritariamente que os olhos se fechem.

Mas, afinal, o que os fazem voltar todos os dias? Para Lucas, o remo é como uma terapia: “quando tenho qualquer raiva, eu penso logo ‘quero treinar’ e parece que aí eu rendo mais, botando mais força na água”. E, então, completa: “sinto falta dos meus pais e às vezes imagino minha mãe sozinha com os dois filhos fora de casa e eu só tenho 15 anos, mas minha casa, agora, é praticamente aqui, mais do que a minha casa mesmo”. Afonso, mais velho, é mais sintético: “eu remo por amor, porque eu gosto de remar – não é por outra coisa não; se eu não gostasse, não acordava todo dia às 4h30 da manhã”. Pedro diz que sente falta das reclamações da mãe, mas gosta da rotina difícil e acha engraçado a relação com as pessoas que passam por cima das pontes nos inícios de manhãs: “tem gente que grita ‘’rema, cacete!’, eu acho engraçado... eles tão indo trabalhar, devem pensar ‘que bando de doido, deviam tá era dormindo – ou arrumar uma lavagem de roupa, num tem o que fazer...’, mas é que eles não entendem”, Pedro prepara a explicação: “no remo, você não treina no abafado, você se sente livre quando entra ali no rio, pode fazer tudo... e quando você olha pra cidade ali de dentro, até a movimentação é diferente”.

Entre brigas e brincadeiras, relações que se constroem e se fortalecem. “Ninguém tá de bom humor o tempo todo, então tem dia que tem um desentendimento, mas a gente já tá tão acostumado, é como uma família mesmo”, explica Arthur. Marcos concorda e completa: “se tivesse de escolher entre dormir em casa e dormir aqui, eu dormiria aqui. Em casa é aquele negócio: chegava, dormia e acabou. Aqui é a companhia do pessoal – querendo ou não, aqui é a família da gente, com as brigas, com as brincadeiras, um perturbando com o outro”. Os garotos da garagem. Um convívio diário, familiar. De um casamento do tempo com o espaço. De irmãos de sangue que se aproximam, de irmãos de remo que se divertem. Que crescem. Que vivem.

Encruzilhada (Os garotos da garagem)

Visitamos várias vezes aquela garagem na rua da Aurora. Sonolentos no começo, fomos despertados pelo encanto do diferente: nos fascinamos, tudo era novo. Com o passar do tempo, nos acostumamos, nos sentimos mais à vontade. De certa forma, fomos integrados ao ambiente. Uma situação inusitada, então, nos levou a uma encruzilhada: nos dias 17, 18 e 19 de Outubro, o Diario de Pernambuco publicou uma série de reportagens intitulada Remando contra a corrente. O objetivo do material foi comparar a situação do remo pernambucano hoje em relação a de 30 anos atrás, os últimos anos áureos da modalidade.

Na época da publicação da série, estávamos visitando a garagem. Lucas estava ansioso, pedindo pra que alguém comprasse o Diario e, então, pudessem ter acesso às matérias. Ficamos numa posição diferenciada, entre a equipe e a imprensa: pudemos sentir que o pessoal não gostou nada do que leu. A queixa se dá pelo sentimento de que a reportagem não reconhecia o trabalho que está sendo realizado no Náutico: em comparação com 30 anos atrás, a situação está, de fato, pior. No entanto, para os alvi-rubros, o Náutico está conseguindo se desenvolver, vivendo agora um momento de crescimento – e não de decadência. “Isso foi armado. O cara veio aqui preparado pra botar pra quebrar na gente”, disse Claudio Belo, após perguntar se tínhamos tomado conhecimento das reportagens. Marcelo Lins, instrutor da escolinha, veio até nós e comentou: “isso é uma sacanagem. O cara vem aqui, a gente recebe na maior boa vontade, conversa mais de uma hora e ele faz isso”. A insatisfação despertou a rivalidade: “deve ter o dedo de alguém do Sport! Olha as fotos, todos os destaques são de lá. Querem nos prejudicar”, gritou alguém mais nervoso.

Naquela hora, sentimos uma espécie de constrangimento, por se tratar do trabalho de um colega de profissão. Ficamos receosos, também, de que essa mágoa da equipe com a mídia resvalasse em nosso trabalho e atrapalhasse a relação deles conosco. Felizmente, nossos receios não se efetivaram.

09 maio 2010

Imagens que contam histórias

"Minha busca é sempre por um herói". A fala do cineasta italiano Roberto Orazi, 45 anos, é emblemática. Seu desejo de contar histórias inspiradoras alia-se à arte das imagens - uma paixão que transborda no entusiasmo de suas palavras, prendendo a atenção de quem o ouve.

Trabalhando nas filmagens de seu quarto documentário, onde contará a história de Cacau, o traficante de livros da comunidade do Bode que ganhou notoriedade na imprensa pernambucana, Orazi foi convidado especial no Curso de Estratégias de Investigação em Jornalismo. Antes de ser diretor de cinema, Roberto trabalhou 15 anos como assistende de direção. Em sala da biblioteca central da UFPE, trajando calça jeans, camisa social e tênis all-star, o italiano, de passagem marcada para seu país no dia seguinte, conversou com estudantes de comunicação na última segunda-feira, três de maio.

Seu depoimento foi precedido da exibição de H.O.T. (sigla em inglês para tráfico de órgãos humanos), sua obra mais recentemente concluída. Foi justamente na fase de produção deste vídeo, premiado no Festival de Cinema de Roma, que Roberto conheceu o Recife. Na ocasião, ele investigou o braço brasileiro de um esquema internacional de tráfico de órgãos e, durante sua busca por informações, conheceu o jornalista Eduardo Machado, com quem mantém contato. Machado é um dos responsáveis pelo curso aos jornalistas e, por extensão, pela presença do italiano naquela sala.

A conversa fluiu naturalmente e, com bastante desenvoltura no português, Orazi contou detalhes de seu trabalho, especialmente de seu processo de apuração. Bastante metódico, Roberto contou que, antes de ir a campo, realiza pesquisa minuciosa na imprensa e na internet, além de ler livros especializados e entrevistar estudiosos do tema. É na rua, porém, que realmente acontece sua obra. Um único depoimento é capaz de modificar todo o rumo até então traçado. Ouvir as pessoas, compreender suas vidas e suas motivações - este é o grande foco.

São histórias que, muitas vezes, surpreendem. O contraste no perfil de brasileiros e nepaleses que vendem seus órgãos é um exemplo. No Nepal, as vítimas do tráfico são socialmente vulneráveis, praticamente escravas. Em meio ao desespero, as pessoas aceitam trocar seus órgãos por dinheiro, cerca de R$ 800. Como resultado, danos à saúde e mortes prematuras. Enquanto isso, no Brasil, os vendedores de órgãos, conscientes de seus atos, encaram a situação como uma oportunidade de mudança de vida. Muitos investem o dinheiro e, no fim das contas, desenvolvem uma relação de gratidão com os intermediadores do negócio.

Apesar do rigor desprendido neste tipo de pesquisa, o que aproxima seu labor da prática jornalística, o cineasta não se considera um repórter. "Meu fascínio, mais do que pela informação, é pela imagem", explica o artista. E assim, de imagem em imagem, Roberto nos revela histórias. Histórias que comovem, histórias que inspiram. Histórias da heróica arte da vida.