24 dezembro 2010
Um perfil para o Natal
23 novembro 2010
Os garotos da garagem - parte 1
Mano Ferreira e Otávio Batista
Tempo e espaço mantém um casamento antigo. Antiqüíssimo. Filósofos, poetas, físicos – muitos foram os que se dedicaram ao estudo, apreciação e exaltação dessa relação. No Recife, eles se encontram mais uma vez: se não com toda sua complexidade metafísica, certamente com profundo simbolismo. Quando o alvorecer na capital pernambucana encontra a Rua da Aurora, logo se nota o belo casal que eles formam. Daqueles que não se vê em todo lugar. Daqueles que só de olhar passa a segurança que, salvo uma catástrofe, eles permanecerão juntos, alvorada após alvorada. Daqueles que, como se diz por aqui, “dá liga”. Diariamente, as primeiras horas da manhã se encontram com aquela rua às margens do Capibaribe e, como é comum nos casamentos, um recebe o nome do outro.
Em torno deste simpático casal orbitam muitas figuras: os primeiros madrugadores da região, que vão à beira do rio praticar exercícios físicos ou caminhar despretensiosamente; os moradores de rua, muitos ainda desfrutando o que resta do seu desprotegido sono; um ou outro cidadão atarefado para algum compromisso. Dentre esses personagens, se destacam também os praticantes de remo do Clube Náutico Capibaribe: a passar pela rua com os barcos nos ombros; a se exercitar nas margens; a singrar o rio, remada a remada.
05h40min, cedo demais pra muita gente. Nessa hora, o técnico Cláudio Belo supervisiona os atletas na água – o treino já está perto do final. De pé em uma pequena praia de solo escuro e enlamaçado entre a margem calçada e a água, no meio da vegetação. O sol incide já ganhando força no espelho sombrio e sujo do Capibaribe. O calção estampa o escudo e as cores do Flamengo, vestígio da sua passagem pelo clube carioca. A camisa é do Náutico. Receptivo, o treinador sorri e, entre observações técnicas sobre os atletas que passam remando no rio, começa a nos contar sua história.
Cláudio é de Natal, capital do Rio Grande do Norte. Filho de remador, começou no esporte ainda garoto, em 1982. Nunca parou. Remou com grandes nomes do desporto nacional. Defendeu a seleção brasileira por vários anos. Disputou torneios internacionais. Quando o tempo venceu as vontades, virou remador máster. Junto ao pai, dirigiu o tradicional Sport Club de Natal, cuja fundação remete aos áureos tempos de 1915. A paixão o transformou em um multiplicador do conhecimento adquirido pelos anos de prática e pelo empenho que cultiva pela qualificação: virou um professor – ou talvez um irmão mais velho, corrigindo defeitos, talhando a técnica, dando dicas aos companheiros que vão surgindo, ainda moços a cortejar as águas para um namoro através dos barcos. Na direção do clube potiguar, costurou uma parceria com o Náutico. Há pouco mais de dois meses, desembarcou no Recife como um atleta máster – e ajudou o alvirrubro a vencer uma hegemonia de 25 anos do maior rival. Passado o campeonato, virou o novo técnico da equipe. Sua missão? Coordenar um trabalho que dissolva as barreiras da imaginação e rompa com os limites – do estado de Pernambuco, dos tempos nas pontas dos remos longos, das amarras da mente. “Aqui em Recife, apesar de ter mais estrutura que em Natal, a preocupação é muito local. Só existe o pernambucano. A rivalidade é muito grande, como no Rio de Janeiro – talvez por conta do futebol, a torcida exige. Lá em Natal, a gente se preocupa com competições maiores: norte-nordeste, brasileiro. Mas agora os meninos tão começando a pensar assim e estamos lutando pra disputar o regional esse ano”, explicou.
O céu ia mudando de tom e as cores do mangue iam mudando de aspecto – sinal que dali a pouco a equipe sairia do rio e os atletas trocariam seus trajes. Os maiôs colados ao corpo logo dariam lugar às fardas – do colégio ou do trabalho. Antes do banho nos vestiários, no entanto, havia todo um ritual a ser feito. Os barcos começavam a se despedir das águas: os remos diminuem os afagos à superfície do rio, na tentativa de amortecer a tapa que o esquife leva da margem; paralisadas as embarcações, os atletas desprendem seus pés e se levantam. Enfiam os pés na praia escura e, em dupla, suspendem o barco, de casco pra cima, os extremos apoiados nos ombros. Outro atleta se encarrega de levar vários remos, lotando os braços. Sobem a calçada e atravessam a rua.
Os garotos da garagem - parte 2
Nesse instante, podem vislumbrar a fachada da garagem: ela é simples. Como não poderia deixar de ser, branca e vermelha, estampada com um austero escudo do clube. Ainda não pintaram o novo modelo do emblema, adotado em 2008. Está lá o escudo antigo, deixando no ar um aspecto de desatualização tradicionalista. Na calçada e no acostamento da rua, impecáveis cavaletes de propaganda política atrapalham a passagem e poluem o visual: é o rosto photoshopado e sorridente do presidente do Conselho Deliberativo do clube, André Campos, candidato a deputado estadual. Também sobre a calçada, há outros cavaletes. Esses são improvisados, feitos lá mesmo na garagem: pedaços de madeira pregados em cima a uma tira de borracha que, apesar de sustentar os barcos, é frágil e se estica – constituindo um perigo aos equipamentos. São para estes cavaletes que os atletas caminham. São lá onde os barcos descansam, à espera da lavagem feita pelos próprios remadores, entre conversas e gargalhadas.
Na Veneza, desta vez brasileira, e nas águas, desta vez do Capibaribe, o remo começou a ser praticado pelo Clube Internacional do Recife em 1888. O Náutico tem sua data de fudação oficial no dia 7 de abril de 1901. No entanto, o grupo que veio a fundar o clube já praticava a modalidade desde a última década do século anterior, sob outras alcunhas. Em 1905 foi fundado o Sport Club do Recife. O Santa Cruz Futebol Clube praticou remo apenas de 1920 a 1922. O Barrozo, cuja sede é vizinha à garagem timbu, é outro importante nome no cenário do remo pernambucano e está atualmente em um processo de revitalização de suas atividades.
Os garotos da garagem - parte 3
Em meio as nossas divagações matinais, Cláudio apareceu e nos apresentou ao grupo. Explicamos nossas intenções e todos, de pronto, foram muito solícitos. Já de início, alguns aspectos nos impressionaram: em primeiro lugar, o fato de que aqueles garotos dormiam todos os dias ali, juntos, longe da família – ao menos, longe de seus pais biológicos. Pudemos depois descobrir que os garotos da garagem são praticamente irmãos. E que dentre eles, há dois que são irmãos de fato: Marcos, o mais velho; e Lucas, o mais novo – dos quais falaremos mais adiante. Também descobrimos que, em meio a tantos garotos, há também uma garota. Wedja Stephany, 18 anos, é Fany, a Torebinha. Chegou ao remo a partir de uma palestra sobre o esporte em seu colégio. O apelido no diminutivo revela sua estatura, baixa para uma remadora – o que a faz ter de superar este desafio com empenho na parte técnica. A convivência em meio a tantos homens nem sempre é tão fácil e ela sente falta de uma companhia feminina na garagem. Como mecanismo de adaptação, a maioria dos meninos a enxergam como uma irmã, o que significa que procuram não notar sua feminilidade. Arthur, 16 anos, o mais falante de todos e que também chegou ao remo a partir de uma palestra em seu colégio, tem uma postura diferente. Ele já teve um namorico com Fany, mas ninguém fala muito a respeito. Quando tem a voz, Arthur rapidamente demonstra a altura de seus sonhos. Fala em vencer campeonatos brasileiros, disputar olimpíadas. Certos desejos que, pudemos descobrir depois, às vezes escorregam em atitudes de soberba. Mas que, no fundo, não deixam de constituir um sonho compartilhado com os colegas.
Os garotos da garagem - parte 4
Seguindo em frente com o tour, no mesmo vão, encontra-se o “escritório”. Na parede externa da sala, fica uma bandeira do Náutico. Dentro, há um sofá, duas cadeiras, uma TV e um Super Nintendo. Foi ali que, em mais um dia, sentamos confortavelmente e conversamos com Marcos, que, com a intimidade e pela última sílaba de seu nome, é chamado pelos companheiros de Cu. Ele sabe o dia exato em que achou o seu esporte: 22 de setembro de 2008, conta com orgulho. Uma dessas precisões que só o gosto extremado é capaz de prover. Pensando no seu futuro, Marcos se dedicou aos estudos – o que o obrigou a dar uma pausa no remo durante o ano passado. Desde janeiro, agora técnico em eletrônica formado pelo CEFET e aprovado em concurso de ingresso na aeronáutica, Cu está de volta à garagem. Tem consciência que, na altura da vida que ele construiu, o remo é somente um prazer a que ele se dedica apaixonadamente à espera da convocação para a carreira militar. Um prazer tão escancarado que inspirou seu irmão, Lucas, que chegou onde estávamos e se juntou à conversa, a seguir o seu caminho desportivo. Pela diferença de idade, eles não são da mesma categoria – e só remaram juntos no mesmo barco uma vez. Mesmo assim, a vida na garagem os aproximou e, além do prazer de remar, Lucas herdou, do irmão (que deixou a sala), o apelido: virou Cuzinho. Cuzinho, 15 anos, estudante no 2º ano do ensino médio, pretende permanecer no remo e galgar o máximo que puder no esporte, falando até em chegar nas Olimpíadas. Sabe, porém, que, no Brasil, muitas vezes os sonhos ainda diferem das metas. Começa, por isso, a pensar em, assim como o irmão, fazer um curso técnico e entrar na carreira militar.
As nossas barrigas começavam a soltar grunhidos, denunciando o avanço das horas. Paramos nossa conversa e saímos do escritório. Cuzinho nos conduziu pela oficina, onde antigamente construíam os barcos de madeira. Hoje, os barcos são mais tecnológicos, feitos de fibras de carbono – uma técnica mais cara e que não foi ainda dominada pelos clubes brasileiros. Assim, a oficina do Náutico não trabalha em plenos vapores, mas faz pequenos reparos nos barcos e remos que se desgastam. Um funcionário mal humorado se dedicava a uma embarcação quando Cuzinho perguntou: “e aí, quando é que esse barco fica pronto?”. A resposta veio seca: “quando eu receber meu salário”. O remo não possui um orçamento animador e os funcionários do clube dependem da administração central pra receber seus rendimentos. A administração central, por sua vez, depende dos resultados do futebol. Assim, se o primo rico estiver em má fase no Náutico significa que os funcionários estarão insatisfeitos, sem receber um tostão. Essa vivência faz com que todos no clube, até aqueles que antes apoiavam outros times dentro das quatro linhas, torçam intensamente pelo Timbu, inclusive nos gramados.
A oficina possui, ao fundo, uma saída para a cozinha – e foi para lá que andamos. Há uma televisão e uma grande mesa com várias cadeiras em volta, onde fazem as refeições. A cozinheira, funcionária do clube, trabalha em um cômodo conjugado, onde ficam o fogão e a geladeira. Quando, por ventura, ela não pode ir, alguém da equipe ou da comissão técnica assume a função. Aceitamos o convite para sentarmos à mesa. Restavam poucos tomando café da manhã: a maioria já havia comido, tomado banho e ganho o mundo. Conversamos amenidades enquanto comíamos pão assado com suco de laranja. Na TV, os gols da rodada no desfecho do Bom Dia Brasil.
Os garotos da garagem - parte 5
Hora de deixar a garagem. Àquela altura, a equipe já estava espalhada, cada um em seu compromisso. Fany devia estar estudando. Arthur, no colégio. Pedro, também. Marcos estava na auto-escola. Lucas estava indo pra casa, ver os pais e estudar – colégio, pra ele, só à tarde. Afonso estava indo pro buffet. Tripa, trabalho. Douglas, trabalho. Todos voltariam mais tarde.
Encruzilhada (Os garotos da garagem)
Visitamos várias vezes aquela garagem na rua da Aurora. Sonolentos no começo, fomos despertados pelo encanto do diferente: nos fascinamos, tudo era novo. Com o passar do tempo, nos acostumamos, nos sentimos mais à vontade. De certa forma, fomos integrados ao ambiente. Uma situação inusitada, então, nos levou a uma encruzilhada: nos dias 17, 18 e 19 de Outubro, o Diario de Pernambuco publicou uma série de reportagens intitulada Remando contra a corrente. O objetivo do material foi comparar a situação do remo pernambucano hoje em relação a de 30 anos atrás, os últimos anos áureos da modalidade.
